"Para nós, iniciados, não
existe a morte. Somos ancestrais..." Os contos de Mãe Beata,
cujo estilo vivaz mantém todo o sabor da originalidade, ilustram à
perfeição o modo como o povo de santo assegura a perenidade dos seus
valores e de sua cultura, e são passíveis de vários níveis de
leitura: desde a análise erudita, que identificará a presença de
temas europeus e africanos, até a compreensão - não menos
sofisticada - dos ensinamentos esotéricos que, sob o disfarçe
aparentemente ingênuo da fábula, objetivam relembrar as regras que
as alianças entre homens e deuses.
A
própria autora é o exemplo dessa dimensão mítica: no relato do seu
nascimento, jorram as águas amnióticas em meio ao fluir do rio, e a
criança vem à luz na encruzilhada, junção do tempo e do espaço,
onde se atam e desatam os destinos dos homens. Multiplicidade dos
mundos possíveis...
Mas
a a graça do estilo e o encanto das histórias garantem ao leitor
outro nível de deleite, o do prazer de voltar a ser criança e
entregar-se à magia dos contos. Assim como os contos coletados pelos
irmãos Grimm ou os ditos de Amandou Koumba, os casos narrados por
Mãe Beata remetem também ao imenso e fascinante repertório do
imaginário universal.
Monique
Augras
Professora Titular do Departamento
de Psicologia da PUC-Rio